Bem na hora em que ganhamos o segundo cromossomo X, ganhamos
também a sina feminina: não, você nunca vai se sentir magra o suficiente. Nem
me refiro aos transtornos alimentares, mas àquela mania que esbarra no
perfeccionismo de se olhar no espelho e... ai-se-eu-tivesse-um-quilo-a-menos.
Eu duvido que a top mais top (esquece a Bündchen, ela tá grávida) ou a Angel
mais celestial da Victoria’s Secret se sinta feliz com seu peso. Em alguma
momento, nem é um quilo inteiro que precisa sair, só mesmo 100g daquela maldita
celulite. Detalhe que passa despercebido aos olhos de todo mundo, menos aos
seus.
O tempo passa e você aprende que gostar de si mesma é gostar também dos
seus defeitos. Claro, vale malhar, encarar o regime, fazer promessa (ah, se
adiantasse), reza forte... Mas o que mais adianta é esquecer o defeitinho se
é que chega a ser defeito, porque se você não vê, os outros também não veem.
Ou veem. É aí que mora a maior crueldade de uma mulher. Talvez
não a maior, mas uma das mais impiedosas. Eu estava na semana mais chata até
então, difícil de passar, na qual tudo de ruim acontece e fui ao banheiro do
trabalho escovar os dentes, como sempre. A Fulana com quem eu não tenho amizade
e só falo oi-tudo-bem por questão de educação, me encarou e soltou a quase
sentença de morte (ok, eu exagerei): “nossa, você tá engordando, né?”.
No gerúndio é ainda pior, saí do banheiro com a impressão de
que eu iria engordar até explodir. E sem dar resposta pra fulana, porque a
resposta correta seria “e o que você tem a ver com isso?” ou ainda “e você que tá
ficando com a pele cada dia mais envelhecida de tanto fumar” ou até pior “e você
que é feia e tem a voz esganiçada?”. Mas como eu não sei dar resposta na hora,
só pensei nisso depois e tive que engolir as frases (será que engolir sapo engorda?).
Eu cresci e aprendi que, se você não tem nada legal pra
dizer a uma pessoa, basta ficar quieto (“as pessoas perdem cada oportunidade de
ficarem com a boca fechada”, já dizia meu sábio pai). Ouvir que você está
engordando de uma mulher é maldade pura. E olha que até um tempo atrás eu usava
calça tamanho 34, hoje uso 36 – e deixa eu me justificar: ganhei massa por
conta da musculação ;). E nem foi de uma hora pra outra, faz uns dois anos.
Viver em sociedade tem muito a ver com a arte de escutar,
deixar entrar por um ouvido, deixar sair pelo outro o quanto antes e esquecer. Deixar pra lá é tão
difícil pra mim, que sei bem os meus momentos de ficar quieta. Hoje eu corro da
Fulana, até vou de escada pra não pegar o elevador com ela. Eu não preciso dessas
doses de maldade pra me testar, muito obrigada. O problema é que nem sempre as maldades que estragam seu dia chegam com um anúncio pendurado no pescoço.
P.S.: esse post é a resposta que eu queria dar a ela. Se a
Fulana ler...







