quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Engolir sapo engorda?



Bem na hora em que ganhamos o segundo cromossomo X, ganhamos também a sina feminina: não, você nunca vai se sentir magra o suficiente. Nem me refiro aos transtornos alimentares, mas àquela mania que esbarra no perfeccionismo de se olhar no espelho e... ai-se-eu-tivesse-um-quilo-a-menos. Eu duvido que a top mais top (esquece a Bündchen, ela tá grávida) ou a Angel mais celestial da Victoria’s Secret se sinta feliz com seu peso. Em alguma momento, nem é um quilo inteiro que precisa sair, só mesmo 100g daquela maldita celulite. Detalhe que passa despercebido aos olhos de todo mundo, menos aos seus.

O tempo passa e você aprende que gostar de si mesma é gostar também dos seus defeitos. Claro, vale malhar, encarar o regime, fazer promessa (ah, se adiantasse), reza forte... Mas o que mais adianta é esquecer o defeitinho se é que chega a ser defeito, porque se você não vê, os outros também não veem.

Ou veem. É aí que mora a maior crueldade de uma mulher. Talvez não a maior, mas uma das mais impiedosas. Eu estava na semana mais chata até então, difícil de passar, na qual tudo de ruim acontece e fui ao banheiro do trabalho escovar os dentes, como sempre. A Fulana com quem eu não tenho amizade e só falo oi-tudo-bem por questão de educação, me encarou e soltou a quase sentença de morte (ok, eu exagerei): “nossa, você tá engordando, né?”.

No gerúndio é ainda pior, saí do banheiro com a impressão de que eu iria engordar até explodir. E sem dar resposta pra fulana, porque a resposta correta seria “e o que você tem a ver com isso?” ou ainda “e você que tá ficando com a pele cada dia mais envelhecida de tanto fumar” ou até pior “e você que é feia e tem a voz esganiçada?”. Mas como eu não sei dar resposta na hora, só pensei nisso depois e tive que engolir as frases (será que engolir sapo engorda?).

Eu cresci e aprendi que, se você não tem nada legal pra dizer a uma pessoa, basta ficar quieto (“as pessoas perdem cada oportunidade de ficarem com a boca fechada”, já dizia meu sábio pai). Ouvir que você está engordando de uma mulher é maldade pura. E olha que até um tempo atrás eu usava calça tamanho 34, hoje uso 36 – e deixa eu me justificar: ganhei massa por conta da musculação ;). E nem foi de uma hora pra outra, faz uns dois anos.

Viver em sociedade tem muito a ver com a arte de escutar, deixar entrar por um ouvido, deixar sair pelo outro o quanto antes e esquecer. Deixar pra lá é tão difícil pra mim, que sei bem os meus momentos de ficar quieta. Hoje eu corro da Fulana, até vou de escada pra não pegar o elevador com ela. Eu não preciso dessas doses de maldade pra me testar, muito obrigada. O problema é que nem sempre as maldades que estragam seu dia chegam com um anúncio pendurado no pescoço.

P.S.: esse post é a resposta que eu queria dar a ela. Se a Fulana ler...


Quem é o zumbi da história?



Os zumbis são eles ou sou eu? Saí com essa dúvida da última vez que subi no salto, escolhi um vestido bonito, me aventurei pela caixa de maquiagem e fui encarar uma balada. Eu já fui muito das baladas, tinha pique pra chegar às cinco da manhã em casa, dormir uma horinha, tomar banho, café extra-forte e encarar mais um dia. Já viajei sem ter onde ficar só por uma micareta. É, eu era da balada.

Era. Porque nessa última vi que já passou meu tempo de fingir que não to nem aí pra quem derruba cerveja no meu pé limpinho, pra fingir que não acho ridículas aquelas meninas que esqueceram a saia em casa e vão dançando até o chão, pra fingir me mexer ao som de uma música que jamais vai tocar na minha casa... Não mais. Eu não tenho nenhum apreço por quem derruba cerveja na pessoa ao lado (tirando os desastres, claro. Cerveja não se desperdiça, quem faz isso me desperta a mesma ira que as senhoras que lavam a calçada com toda a água do futuro), fico com dó (desprezo?) da menina que usa seus dotes rebolativos e sua falta de roupa pra chamar a atenção do cara ao lado e não suporto música ruim. Eu aguento melhor a poluição do ar que a sonora.

Aliás, intolerância musical tem muito a ver com a idade e o amadurecimento, eu acho. Quando era mais nova, meu gosto musical era o mesmo de hoje e isso não me impedia de me divertir em festas. Eu amava uma micareta, caramba. Hoje, não. Ainda tô so, so far away dos 70 anos (e da sinceridade típica dessa idade), mas não entendo quem gosta de músicas que falem de carro, que tenham o um único ritmo pobrinho ou tenham a mesma sonoridade que a construção do prédio aqui em frente de casa provoca todo dia às 7 da manhã.

Seria eu uma zumbi ou só mais tolerante nos meus anos baladeiros? Não sei, o que sei é que cair na balada errada hoje em dia tem o mesmo efeito que ser extraterrestre. Fica difícil entender aquela gente, aqueles costumes, aquele som que deixa a maior parte das pessoas felizes... Eu me obrigava a aceitar os convites das amigas porque, enfim, solteira não se arranja assistindo a filminho em casa. Mas depois dessa última festa, descobri que não quero me arranjar com o fulano que frequenta toda sexta ou todo sábado (ou os dois, pior!) esse tipo de ambiente. Sair de casa pra uma noitada agora só depois de saber qual banda vai tocar e quais os meus amigos irão. Qualquer festa é garantia de sucesso quando você está bem cercada e com os ouvidos bem amparados. Do contrário, fico em casa mesmo, onde entra quem eu quero, toca o que eu gosto e, se a cerveja cair, vira piada.

P.S.: intolerância musical + intolerância com gente que usa o corpo pra chamar a atenção, é oficial: tô ficando velha!

domingo, 15 de julho de 2012

Um post meio perdido e meio feliz


Uma dúvida: por que tristeza é blue? Acho azul mais lindo que amarelo

Eu queria ser uma dessas pessoas que são felizes com coisas óbvias e fáceis, sabe? Dessas que, se estão tristes, vão ao shopping, assassinam o cartão e saem leves e felizes. Acho o máximo gente que consegue comprar a alegria em suaves (ou nem tão suaves) prestações. Eu sou daquelas que sai do shopping com uma peça da qual não precisava pensando, “por que eu fiz isso, eu não precisava!”, com aquela cara de perseguida pela polícia ou de criança que se lambuzou com a sobremesa antes do almoço, culpada, culpada, culpada. Porque eu acho que todo dinheiro que sobra tem um destino certo: viajar. Viajar pra lavar a alma e conhecer gente e lugares que fazem você ser um pouco mais você. Eu sou uma mistura de experiências e sensações, sou a soma de um céu azul diferente, de um pé na bunda quase inesquecível, de um sorriso que veio de um desconhecido e de um doce escandaloso de gostoso. Definitivamente eu não sou as peças do meu guarda-roupa, elas só vestem minha alma perdida, que insiste em achar que a felicidade está sempre ao nosso lado, mas às vezes escorrega e se perde nos outros que passam pela nossa vida.

Queria ser constante e quase indiferente, como essas pessoas que parecem nunca sair da linha reta que é a vida delas. Estudar, arrumar um emprego, casar, ter filhos, trocar de carro e viajar com o décimo terceiro. Minha vida às vezes para e às vezes dá um looping meio louco. Eu não sei o meu final e, ao mesmo tempo em que acho isso máximo, tenho pavor de não saber. Um spoiler, por favor. Não, eu não coloco tudo nas mãos do destino. Mas algumas coisas são destino puro. Felizmente ou infelizmente eu ainda descubro.

Adoraria ser gulosa e compensar minhas frustrações na comida. Dia desse li uma frase, que era algo do tipo “If you’re eating a lot, what is eating you?”, eu sou assim. Não que eu não ame comer, mas não como por compensação. No fim das contas, não compensa ficar com excesso de celulite só por um problema que logo passa. Aliás, a maioria dos problemas sempre passa logo. Esses probleminhas banais hoje em dia me fazem ficar indiferente porque pra tudo dá-se um jeito. Vai ver isso é amadurecer. O único problema que persiste é o vazio que fica em cada momento mais feliz, em cada tristeza mais desesperadora, em cada situação mais à toa... Não, não é fome. É falta de ter alguém pra dividir tudo. Camaradagem além da amizade, além da relação mãe-filha, pai-filha. Alguém pra beijar rindo e rir junto beijando. Isso faz muita falta, mas não e faz perder as esperanças, nem me deixa mais triste ou incompleta. A felicidade eu guardo no bolso, mas às vezes esqueço de tirar do bolso de uma calça pra colocar na outra. Quando eu a encontro, é como achar uma nota de dez reais (ou dois ou cinqüenta, whatever...).

P.S.: vou lá comer um brigadeiro porque hoje é domingo e domingo compensa tudo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Aos corintianos



Time que tem uma torcida ou torcida que tem um time? Voto na última

Eu não sei como o coração da gente pende pra um time, no meu caso deve ter sido muito pelos olhos verdes brilhando de felicidade do meu pai toda vez que o Corinthians ganhava.

Hoje eu sei que sou corintiana por conta dos corintianos. Falem o que quiser, anticorintianos. Mas não existe amor maior do que o dessa torcida. Todo corintiano fica bonito (ou mais bonito, no caso do Fábio Assunção) ao sorrir falando do Corinthians. E costuma ser assim até na derrota, o sorriso é mais modesto, quase invisível, mas é daqueles fiéis. Porque todo corintiano sabe que estar por baixo acontece vez ou outra, mas funciona como trampolim. E receber zoação alheia só faz o amor crescer.

Gosto de ver o bando gritando/cantando no Pacaembu, seguro as lágrimas com toda reportagem com alguém dizendo Vai, Curintia, amo gente que se chama de louco por um amor que não cabe no peito. É bom cantar junto eu-vivo-por-ti-Corinthians, é exagerado, sim. Como todo amor que sobra e que não é morno.

Não assisto a jogo do Corinthians porque sou bem covarde, não covarde com medo do meu sofrimento, mas com medo de ver corintiano chorar de tristeza, porque eles não merecem. Os corintianos são humildes, ninguém pede goleada e sabe que 1X0 é tão saboroso quanto. Corintianos são simples e pouco importa a classe social e o nível de estudo, todos ficam juntos no Vai, Curintia! Corintianos, pouco importa fé, são todos devotos de São Jorge. Eu adoro como você quase vira parente (parente gente boa, claro) de alguém que nunca conheceu, mas que de repente diz torcer pro Timão.

Foi por isso que sofri a cada jogo nessa Libertadores. A gente não pode zombar do sonho de ninguém, principalmente do sonho de (mais de) 30 milhões de pessoas cujos corações batem no mesmo ritmo. E que ritmo! Ganhar não faz de mim mais corintiana, perder talvez fizesse, porque perder é amargo e é quando você percebe que tem um amor mais forte que um troféu. Mas ganhar é doce e é com esse gostinho bom que eu desejo bom dia a todos os corintianos. Nós merecemos!

E bom dia especial ao meu pai corintiano nervoso e meio covarde também (de quem será que herdei o pânico de ver jogo?), que me mostrou, com os olhos verdes sempre brilhando, o quanto é bom fazer parte dessa torcida! Por alguns quilômetros de estrada, não vi os olhos dele derramarem lágrimas ontem. Mas senti o coração pulsando, esse coração corintiano pulsa igual em todos nós.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A arte (rara) de se virar



Gosto de pensar que existem várias classificações para as pessoas. As que gostam de chuva e as que não gostam. As que sabem falar obrigado e as pessimamente educadas que não. As que falam olhando nos olhos (amo essas!) e as que desviam o olhar (algo a esconder? Timidez? Um mistério...). Mas ultimamente a vida me fez perceber dois tipos bem distintos: as que se viram sozinhas e as que acham que você nasceu pra servi-las (isso, servi-las, diferente de fazer um favorzinho, sabe?).

Eu acho terrível ter que pedir favor, só peço em último caso mesmo. Acho que talvez seja uma tradição lá em casa: se você pode viver sem amolar os outros, melhor. E eu adorei ter sido criada desse jeito, acredito que ninguém tem nada a ver com seus problemas, seus esquecimentos, suas frustrações, seu tudo. Uma coisa é ter amigos e dividir as chateações, ligar e dar uma reclamadinha faz parte. Fazer seus amigos entrarem em seus problemas definitivamente não faz parte. É egoísmo, é ser mimadinho (no mau sentido, afinal, ser mimado não faz de você uma má pessoa, ser o tesouro da mamãe não quer dizer que você é chato. Ser chato é uma questão que vai bem além!).

Chega de parênteses. Explico minha nova divisão entre as pessoas: dia desses um conhecido esqueceu, em uma viagem, algo sem o qual não pudesse viver sem. Algo não muito barato, mas também nada impossível de comprar outro. Não era um carro, mas também não era um lápis. Vamos ficar nesse meio termo. Pediu o meu emprestado. Emprestei de boa fé, porque o conhecido disse que devolveria em alguns dias. Alguns dias. Só que aí eu precisei do objeto e já havia passado semanas (duas, mas mesmo assim é plural). Odeio cobrar. É bem por isso que sei que dificilmente vou dar conta de trabalhar em comércio. Mas cobrei o conhecido, pedi de volta. E descobri que, pelos planos do fulano, ele só me devolveria depois de mais duas semanas, quando voltasse para o lugar onde esqueceu o objeto e aí devolveria o meu. Oi? O mundo gira ao redor do seu umbigo? God, no!

Esse é um fulano que entra na categoria acha-que-os-outros-nasceram-pra-servi-lo. Você não pode punir alguém de fora da sua história por conta do seu esquecimento. Não pode viver de mau humor porque chegou molhado da chuva no trabalho. A chuva cai pra todos, ou não? Não pode dar coice em todo mundo porque não tem namorado. A vida ficaria impossível assim, lotada de gente que culpa todo mundo por coisas nada a ver.

É por isso que me orgulho de ter sido criada pra ser independente. Meu tipo preferido de gente é aquele que vive sorrindo (de verdade, com a alma) mesmo depois de ver os obstáculos que a vida lhe impôs. Meu tipo de gente é aquele que supera os problemas sozinho (e depois desabafa com os mais chegados... Porque desabafar, com cerveja ou café, faz parte). Nem todo dia dá pra ser desse jeito, eu sei. Mas quem vive assim a maior parte dos 365 dias do ano entra no meu seleto clube de super-heróis da vida real.

P.S.: eu não sou rica suficiente pra visitar a Europa todo ano, mas não desconto isso em ninguém. Eu não tenho namorado, mas não vivo de cara fechada por isso. E tento ser assim pelo menos em 183 dias do ano. Não é fácil. É uma batalha por dia, mas é meu jeito de viver. O mais gostoso.


sábado, 16 de junho de 2012

Sobre sombrinhas e dias de chuva



Eu não sei as suas, mas minhas sombrinhas sempre quebram em dias de chuva forte. Elas não resistem, se quebram no vento, vai ver são feitas de açúcar (definição que minha mãe adora me dar e acho meio correta e meio errada, como toda generalização). Eu entendo que chuvas fortes quebram sombrinhas, mas, caramba, elas não foram criadas pra serem usadas na chuva, na tempestade, no dilúvio?

Quando meu mundo tinha desabado um pouco, choveu a semana toda, de verdade, esqueça o lirismo se é que esse texto tem algum. Óbvio que minha sombrinha me deixou na mão no meio do caminho e eu segui me molhando, cabelo arrepiando, coração derretendo. Sim, o minicaos. Cheguei em casa e fiquei pensando na injustiça que é ter a sombrinha quebrada bem em dia de chuva. Só que aí a voz que mora na minha cabeça e vive interagindo comigo (independente da minha vontade) gritou: “como você queria que ela quebrasse num dia ensolarado se ela só fica guardada?”. 

A voz da razão (que minha mãe colocou em mim via chip desde que vim morar sozinha, eu imagino), eis um clichezão, nunca está errada. As coisas só se quebram quando a gente as coloca em uso. Você já quebrou uma xícara que só fica dentro do armário? Um brinco que nunca sai do porta-joia? Já desfiou uma meia-calça que fica eternamente na gaveta? Sentou em cima do óculos de grau que nunca sai da caixinha? Ganhou uma cicatriz no joelho sem ter corrido como (e com) o vento quando criança? Já teve o coração partido sem ter gostado de alguém? A vida vai quebrando as coisas e a gente, toda vez que as colocamos (e nos colocamos) em uso. Estar vivo não tem nada de ser intacto, não. Estar vivo é ter o poder de se consertar toda vez que o improvável aparece. Porque o improvável faz parte, ué. Você dá a cara a tapa e nem sempre vem um carinho, às vezes vem o tapa mesmo.

Se você se retira do jogo, fica fora de forma. Você quer ficar em stand-by na sua própria vida? Não faz sentido, eu acho apesar de todas as dores e tombos e cicatrizes. No fundo, o segredo das pessoas felizes é a rapidez com que superam um capote e um tapete puxado. Superam de verdade, voltam a rir com alma, sabe? As sombrinhas sempre vão quebrar, isso é inevitável. Mas mais inevitável do que isso é andar na chuva. Qual é a graça de mergulhar se você não entra de cabeça, por dó de estragar o cabelo? Apesar de todos os pesares, é desse jeito que mais gosto. Morno, pra mim, nunca será o novo quente. Pouca maionese nunca é suficiente, eu gosto de me lambuzar sem medo do colesterol. Eu nunca dou pedacinhos do meu coração. Às vezes, me devolvem em pedaços triturados. Tudo bem, deixa que eu tenho a cola pra dar um jeito.

P.S.: seu eu fosse mesmo de açúcar, não escreveria esse texto. Não viveria minha vida assim, na chuva. E eu sei que minha mãe sabe disso ;)

domingo, 27 de maio de 2012

Mr. Right... Now!


Adivinha quem sou eu na ilustração?!

Eu não sou nada fã de violência, passo longe até das reportagens sobre UFC, mas sinto uma vontade (totalmente controlável, é claro) de socar alguém que vira e diz: “calma, quando você menos esperar, a pessoa certa vai aparecer”. Se fosse uma única pessoa que dissesse isso, eu iria esquecer. Aquela coisa de entra-por-um-ouvido-sai-pelo-outro... Mas não, todos os meus amigos adoram me dizer essa frase. (Só um parênteses necessário, eu continuo adorando os meus amigos que me dizem isso, nunca vou socá-los, é só coisa de momento).

A verdade é que é bem simples e fácil pra alguém que está feliz com o namorado/marido/gato de estimação aconselhar uma solteira de alma perturbada e meio louca. Ela está lá, no conforto do abraço, vendo tudo como telespectadora. Não é ela quem está perdendo os cabelos, morrendo de gastrite, perdendo o sono ao se questionar se-eu-não-fiz-nada-de-errado-e-se-eu-sou-assim-tão-legal-por-que-não-deu-certo?!, e acordando com a mesma pergunta martelando no cérebro. Todo mundo que namora, casa ou arruma um gato de estimação se esquece de como é triste não ter ninguém. Pior: não ter a esperança de ter alguém.

O chavão da autoestima de que você precisa se sentir bem consigo mesma e se amar pra alguém te amar de volta eu já mandei pro espaço faz tempo. Faz 28 anos que eu sou sozinha e faz 28 anos que as pessoas dizem que eu sou bem-humorada. Faz cinco anos que moro sozinha e sou feliz assim, me divirto e ocupo tanto as 24 horas do meu dia que queria que elas virassem 28, pelo menos. Faz, no mínimo, dez anos que eu ouço o espera-uma-hora-o-cara-certo-aparece e já enjoei. Por que ele demora tanto, caramba?! Será que o problema é que me dou bem com a minha solidão? Eu posso brigar com ela, se for o caso.

Eu já abri tanto as minhas exceções que eu nem sei mais o que cara precisa ter pra ser o certo, quer dizer, eu sei. Só que isso não diminui o fato de que essa Instituição Do Cara Certo é uma baita besteira. O que faz um cara ser certo? Não fumar, não beber, praticar esportes e não comer carne na quaresma? Bom, se for isso, eu aceito um Cara Errado desde que ele não me magoe e me trate como eu mereço (porque eu tô solteira, ok, mas não desesperada).

Quer dizer, um pouco de desespero impaciência pode ser que exista. É uma sensação de estar na fila de espera há muito tempo e sempre que sua vez está pra chegar, aparece alguém pra entrar na sua frente por conta das suas características especiais. Hei, eu também tenho minhas características especiais. Todo mundo que sentou comigo na sala de espera já casou e eu continuo lá, fazendo piada (eu cansei de fazer graça!), provando pro responsável pela Instituição Do Cara Certo que eu vou bem sozinha. Ter meu apartamento, ser independente, me virar na cozinha, consertar o chuveiro, matar barata (no grito, mas enfim...) ainda não serviram pra Instituição. Preciso aprender a voar? Sério, se for isso eu tento, ué.

Eu já vivi tanta coisa, já consertei tanto meu coração (esse mutante) e continuo acreditando na maldita Instituição Do Amor. Sério, quando os deuses vão provar que eu não acreditei em vão? Que malhar teve uma razão, que me maquiar (e tirar a maquiagem quando chegava de madrugada) teve um bom motivo, que levar tanto pé na bunda finalmente me empurrou pra frente? Eu quero pra ontem, cansei de esperar. E não é por isso que aceito qualquer coisa. Ainda acredito, apesar de todas as mudanças pelas quais meu conceito de homem ideal passou, que O Cara Certo abre a porta do carro, pelo menos uma vez na vida se oferece pra pagar a conta, é cheiroso, tem barba por fazer, usa camisa xadrez (e não gosta de sertanejo), dá risada das minhas besteiras e gosta de mim por e apesar de tudo o que eu sou. Tô esperando e não saio dessa vida sem ele.

P.S.: me recuso a comprar um gato de companhia. Quero um gato de estimação, mas só compro depois que o Cara Certíssimo chegar. Claro, chegar e não for embora.


terça-feira, 22 de maio de 2012

Fake plastic heart


As palavras que mais fazem pensar são aquelas que não são ditas. Essas são as que mais tiram o chão, o sono e a cabeça do lugar. Elas são eloquentes e podem doer, só depende da ocasião que são usadas, quer dizer, que não são usadas.

As palavras que magoam, você supera. As palavras que elogiam, você acaba deixando de lado ou esquecendo (não sei o porquê, mas isso acontece). Eventualmente tudo passa. Menos a sensação do que não foi dito. Você pode se lembrar menos das não-palavras com o passar dos dias, mas vai se lembrar da falta que elas fizeram toda vez que o assunto voltar à sua memória.

Ainda quando as palavras não ditas são aquelas carinhosas, trocadas no silêncio de um olhar, tudo bem. Acredito muito no poder das declarações ditas no silêncio de um olhar. Tudo começa com um olhar mais demorado. E tudo começa a desmoronar na falta de coragem de olhar. Essa é a verdade.

Agora, as palavras não explicadas, aquelas que fazem você imaginar o quanto errou sem ter errado, essas machucam feito uma faca no peito. Agir indiferente com quem tem sentimentos e boa vontade com você é o maior pecado. A crueldade de que se é capaz, deixar pra trás os corações partidos, como já cantou Herbert Vianna. Não vou entrar na questão pequeno-principiana de que se é responsável por quem cativa porque não acredito nela. Mas acredito no respeito. E como acredito. 

Corajosos perguntam, morrendo de medo da verdade. Covardes fogem das resposta porque sabem o quanto estão errados. As palavras não ditas, no fundo, são isso mesmo: o silêncio de quem age com covardia. O motivo de eu (você e tanta gente) se mortificar questionando quais seriam essas palavras é injusto, mas acontece com quem tem coração. O coração costuma sangrar na dúvida. Mesmo assim ainda prefiro um coração sangrando a um fake plastic heart.
Sometimes everybody cries =\

P.S.: se inventam vacina pra gripe, por que não algo pra imunizar o coração por sentimentos desperdiçados com idiotas?