Eu não sei as suas, mas minhas sombrinhas sempre quebram em
dias de chuva forte. Elas não resistem, se quebram no vento, vai ver são feitas
de açúcar (definição que minha mãe adora me dar e acho meio correta e meio
errada, como toda generalização). Eu entendo que chuvas fortes quebram
sombrinhas, mas, caramba, elas não foram criadas pra serem usadas na chuva, na
tempestade, no dilúvio?
Quando meu mundo tinha desabado um pouco, choveu a semana
toda, de verdade, esqueça o lirismo se é que esse texto tem algum. Óbvio
que minha sombrinha me deixou na mão no meio do caminho e eu segui me molhando,
cabelo arrepiando, coração derretendo. Sim, o minicaos. Cheguei em casa e
fiquei pensando na injustiça que é ter a sombrinha quebrada bem em dia de
chuva. Só que aí a voz que mora na minha cabeça e vive interagindo comigo (independente
da minha vontade) gritou: “como você queria que ela quebrasse num dia
ensolarado se ela só fica guardada?”.
A voz da razão (que minha mãe colocou em mim via chip desde
que vim morar sozinha, eu imagino), eis um clichezão, nunca está errada. As coisas só se quebram quando a gente as
coloca em uso. Você já quebrou uma xícara que só fica dentro do armário? Um
brinco que nunca sai do porta-joia? Já desfiou uma meia-calça que fica
eternamente na gaveta? Sentou em cima do óculos de grau que nunca sai da
caixinha? Ganhou uma cicatriz no joelho sem ter corrido como (e com) o vento
quando criança? Já teve o coração partido sem ter gostado de alguém? A vida vai
quebrando as coisas e a gente, toda vez que as colocamos (e nos colocamos) em
uso. Estar vivo não tem nada de ser intacto, não. Estar vivo é ter o poder de
se consertar toda vez que o improvável aparece. Porque o improvável faz parte,
ué. Você dá a cara a tapa e nem sempre vem um carinho, às vezes vem o tapa
mesmo.
Se você se retira do jogo, fica fora de forma. Você quer
ficar em stand-by na sua própria vida? Não faz sentido, eu acho apesar de
todas as dores e tombos e cicatrizes. No fundo, o segredo das pessoas
felizes é a rapidez com que superam um capote e um tapete puxado. Superam de
verdade, voltam a rir com alma, sabe? As sombrinhas sempre vão quebrar, isso é
inevitável. Mas mais inevitável do que isso é andar na chuva. Qual é a graça de
mergulhar se você não entra de cabeça, por dó de estragar o cabelo? Apesar de
todos os pesares, é desse jeito que mais gosto. Morno, pra mim, nunca será o
novo quente. Pouca maionese nunca é suficiente, eu gosto de me lambuzar sem
medo do colesterol. Eu nunca dou pedacinhos do meu coração. Às vezes, me
devolvem em pedaços triturados. Tudo bem, deixa que eu tenho a cola pra dar um
jeito.
P.S.: seu eu fosse mesmo de açúcar, não escreveria esse
texto. Não viveria minha vida assim, na chuva. E eu sei que minha mãe sabe
disso ;)

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Só tome cuidado com o excesso de sinceridade ;)