sexta-feira, 22 de junho de 2012

A arte (rara) de se virar



Gosto de pensar que existem várias classificações para as pessoas. As que gostam de chuva e as que não gostam. As que sabem falar obrigado e as pessimamente educadas que não. As que falam olhando nos olhos (amo essas!) e as que desviam o olhar (algo a esconder? Timidez? Um mistério...). Mas ultimamente a vida me fez perceber dois tipos bem distintos: as que se viram sozinhas e as que acham que você nasceu pra servi-las (isso, servi-las, diferente de fazer um favorzinho, sabe?).

Eu acho terrível ter que pedir favor, só peço em último caso mesmo. Acho que talvez seja uma tradição lá em casa: se você pode viver sem amolar os outros, melhor. E eu adorei ter sido criada desse jeito, acredito que ninguém tem nada a ver com seus problemas, seus esquecimentos, suas frustrações, seu tudo. Uma coisa é ter amigos e dividir as chateações, ligar e dar uma reclamadinha faz parte. Fazer seus amigos entrarem em seus problemas definitivamente não faz parte. É egoísmo, é ser mimadinho (no mau sentido, afinal, ser mimado não faz de você uma má pessoa, ser o tesouro da mamãe não quer dizer que você é chato. Ser chato é uma questão que vai bem além!).

Chega de parênteses. Explico minha nova divisão entre as pessoas: dia desses um conhecido esqueceu, em uma viagem, algo sem o qual não pudesse viver sem. Algo não muito barato, mas também nada impossível de comprar outro. Não era um carro, mas também não era um lápis. Vamos ficar nesse meio termo. Pediu o meu emprestado. Emprestei de boa fé, porque o conhecido disse que devolveria em alguns dias. Alguns dias. Só que aí eu precisei do objeto e já havia passado semanas (duas, mas mesmo assim é plural). Odeio cobrar. É bem por isso que sei que dificilmente vou dar conta de trabalhar em comércio. Mas cobrei o conhecido, pedi de volta. E descobri que, pelos planos do fulano, ele só me devolveria depois de mais duas semanas, quando voltasse para o lugar onde esqueceu o objeto e aí devolveria o meu. Oi? O mundo gira ao redor do seu umbigo? God, no!

Esse é um fulano que entra na categoria acha-que-os-outros-nasceram-pra-servi-lo. Você não pode punir alguém de fora da sua história por conta do seu esquecimento. Não pode viver de mau humor porque chegou molhado da chuva no trabalho. A chuva cai pra todos, ou não? Não pode dar coice em todo mundo porque não tem namorado. A vida ficaria impossível assim, lotada de gente que culpa todo mundo por coisas nada a ver.

É por isso que me orgulho de ter sido criada pra ser independente. Meu tipo preferido de gente é aquele que vive sorrindo (de verdade, com a alma) mesmo depois de ver os obstáculos que a vida lhe impôs. Meu tipo de gente é aquele que supera os problemas sozinho (e depois desabafa com os mais chegados... Porque desabafar, com cerveja ou café, faz parte). Nem todo dia dá pra ser desse jeito, eu sei. Mas quem vive assim a maior parte dos 365 dias do ano entra no meu seleto clube de super-heróis da vida real.

P.S.: eu não sou rica suficiente pra visitar a Europa todo ano, mas não desconto isso em ninguém. Eu não tenho namorado, mas não vivo de cara fechada por isso. E tento ser assim pelo menos em 183 dias do ano. Não é fácil. É uma batalha por dia, mas é meu jeito de viver. O mais gostoso.


sábado, 16 de junho de 2012

Sobre sombrinhas e dias de chuva



Eu não sei as suas, mas minhas sombrinhas sempre quebram em dias de chuva forte. Elas não resistem, se quebram no vento, vai ver são feitas de açúcar (definição que minha mãe adora me dar e acho meio correta e meio errada, como toda generalização). Eu entendo que chuvas fortes quebram sombrinhas, mas, caramba, elas não foram criadas pra serem usadas na chuva, na tempestade, no dilúvio?

Quando meu mundo tinha desabado um pouco, choveu a semana toda, de verdade, esqueça o lirismo se é que esse texto tem algum. Óbvio que minha sombrinha me deixou na mão no meio do caminho e eu segui me molhando, cabelo arrepiando, coração derretendo. Sim, o minicaos. Cheguei em casa e fiquei pensando na injustiça que é ter a sombrinha quebrada bem em dia de chuva. Só que aí a voz que mora na minha cabeça e vive interagindo comigo (independente da minha vontade) gritou: “como você queria que ela quebrasse num dia ensolarado se ela só fica guardada?”. 

A voz da razão (que minha mãe colocou em mim via chip desde que vim morar sozinha, eu imagino), eis um clichezão, nunca está errada. As coisas só se quebram quando a gente as coloca em uso. Você já quebrou uma xícara que só fica dentro do armário? Um brinco que nunca sai do porta-joia? Já desfiou uma meia-calça que fica eternamente na gaveta? Sentou em cima do óculos de grau que nunca sai da caixinha? Ganhou uma cicatriz no joelho sem ter corrido como (e com) o vento quando criança? Já teve o coração partido sem ter gostado de alguém? A vida vai quebrando as coisas e a gente, toda vez que as colocamos (e nos colocamos) em uso. Estar vivo não tem nada de ser intacto, não. Estar vivo é ter o poder de se consertar toda vez que o improvável aparece. Porque o improvável faz parte, ué. Você dá a cara a tapa e nem sempre vem um carinho, às vezes vem o tapa mesmo.

Se você se retira do jogo, fica fora de forma. Você quer ficar em stand-by na sua própria vida? Não faz sentido, eu acho apesar de todas as dores e tombos e cicatrizes. No fundo, o segredo das pessoas felizes é a rapidez com que superam um capote e um tapete puxado. Superam de verdade, voltam a rir com alma, sabe? As sombrinhas sempre vão quebrar, isso é inevitável. Mas mais inevitável do que isso é andar na chuva. Qual é a graça de mergulhar se você não entra de cabeça, por dó de estragar o cabelo? Apesar de todos os pesares, é desse jeito que mais gosto. Morno, pra mim, nunca será o novo quente. Pouca maionese nunca é suficiente, eu gosto de me lambuzar sem medo do colesterol. Eu nunca dou pedacinhos do meu coração. Às vezes, me devolvem em pedaços triturados. Tudo bem, deixa que eu tenho a cola pra dar um jeito.

P.S.: seu eu fosse mesmo de açúcar, não escreveria esse texto. Não viveria minha vida assim, na chuva. E eu sei que minha mãe sabe disso ;)