Os zumbis são eles ou sou eu? Saí com essa dúvida da última
vez que subi no salto, escolhi um vestido bonito, me aventurei pela caixa de
maquiagem e fui encarar uma balada. Eu já fui muito das baladas, tinha pique
pra chegar às cinco da manhã em casa, dormir uma horinha, tomar banho, café
extra-forte e encarar mais um dia. Já viajei sem ter onde ficar só por uma
micareta. É, eu era da balada.
Era. Porque nessa última vi que já passou meu tempo de
fingir que não to nem aí pra quem derruba cerveja no meu pé limpinho, pra
fingir que não acho ridículas aquelas meninas que esqueceram a saia em casa e
vão dançando até o chão, pra fingir me mexer ao som de uma música que jamais
vai tocar na minha casa... Não mais. Eu não tenho nenhum apreço por quem
derruba cerveja na pessoa ao lado (tirando os desastres, claro. Cerveja não se
desperdiça, quem faz isso me desperta a mesma ira que as senhoras que lavam a
calçada com toda a água do futuro), fico com dó (desprezo?) da menina que usa
seus dotes rebolativos e sua falta de roupa pra chamar a atenção do cara ao
lado e não suporto música ruim. Eu aguento melhor a poluição do ar que a
sonora.
Aliás, intolerância musical tem muito a ver com a idade e o
amadurecimento, eu acho. Quando era mais nova, meu gosto musical era o mesmo de
hoje e isso não me impedia de me divertir em festas. Eu amava uma micareta,
caramba. Hoje, não. Ainda tô so, so far
away dos 70 anos (e da sinceridade típica dessa idade), mas não entendo
quem gosta de músicas que falem de carro, que tenham o um único ritmo pobrinho
ou tenham a mesma sonoridade que a construção do prédio aqui em frente de casa
provoca todo dia às 7 da manhã.
Seria eu uma zumbi ou só mais tolerante nos meus anos
baladeiros? Não sei, o que sei é que cair na balada errada hoje em dia tem o
mesmo efeito que ser extraterrestre. Fica difícil entender aquela gente,
aqueles costumes, aquele som que deixa a maior parte das pessoas felizes... Eu me obrigava a aceitar os convites das amigas porque,
enfim, solteira não se arranja assistindo a filminho em casa. Mas depois dessa
última festa, descobri que não quero me arranjar com o fulano que frequenta
toda sexta ou todo sábado (ou os dois, pior!) esse tipo de ambiente. Sair de
casa pra uma noitada agora só depois de saber qual banda vai tocar e quais os
meus amigos irão. Qualquer festa é garantia de sucesso quando você está bem
cercada e com os ouvidos bem amparados. Do contrário, fico em casa mesmo, onde
entra quem eu quero, toca o que eu gosto e, se a cerveja cair, vira piada.
P.S.: intolerância musical + intolerância com gente que usa
o corpo pra chamar a atenção, é oficial: tô ficando velha!

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Só tome cuidado com o excesso de sinceridade ;)